Jesus Ensina aos Homens as Leis da Criação

A Lei da Reciprocidade

Conforme visto, as leis básicas da Criação são três: a Lei da Reciprocidade, a Lei da Gravidade e a Lei de Atração da Igual Espécie. Como já mencionei alguns exemplos da atuação da Lei da Gravidade, vamos nos ater aqui às explicações de Jesus sobre a atuação das outras duas leis primordiais.

Especificamente em relação à Lei da Reciprocidade, dada sua abrangência, vamos dividi-la em duas: a Lei da Reciprocidade propriamente dita e a Lei do Movimento que, como analisado, é uma decorrência natural daquela. O movimento não só existe em toda a Criação como até se constitui no sustentáculo de todo o existir. Na obra Na Luz da Verdade, dissertação “Destino”, Abdruschin traz o seguinte esclarecimento sobre a Lei da Reciprocidade agindo como impulsionadora do movimento contínuo no Universo:

“As pessoas falam sobre destino merecido e destino imerecido, recompensa e castigo, desforra e carma.

Tudo isso são apenas designações parciais duma lei existente na Criação: a lei da reciprocidade!

Trata se de uma lei que existe na Criação inteira desde os seus primórdios, lei essa que foi entrelaçada inseparavelmente no vasto processo do evoluir eterno, como parte indispensável do próprio criar e do desenvolvimento. Como um gigantesco sistema de finíssimos fios de nervos, essa lei mantém e anima o gigantesco Universo, impulsionando permanente movimento, um eterno dar e receber!”

Jesus não poupou esforços para transmitir aos seres humanos o sentido das leis universais da Criação, particularmente da Lei da Reciprocidade. Em múltiplas oportunidades instou os ouvintes a cuidarem de suas próprias ações, porque no efeito recíproco que elas geram teriam eles mesmos, infalivelmente, de arcar com as conseqüências. Uma de suas primeiras indicações a esse respeito é a seguinte:

“Tu, porém, ao dares esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita, para que a tua esmola fique em secreto, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.”

(Mt6:3,4)

Há quem procure explicar essas palavras com a indicação de que no Templo havia uma câmara de segredos, na qual os devotos depositavam secretamente suas ofertas, para que os pobres dali recebessem seu sustento “em secreto”. O sentido das palavras de Jesus, porém, não se refere a tais coisas, não diz respeito a algo tão restrito, tão mundano. Jesus, com seus ensinamentos, sempre dava orientações amplas para a atuação do espírito humano na Criação, e não para simples afazeres cotidianos durante sua curta estada aqui na Terra.

Quando ele adverte o ser humano para que, ao dar esmola, ignore a mão esquerda o que faz a direita, está primeiramente ensinando que um ato bom só tem valor quando provém do íntimo do ser humano, caso contrário será apenas mera exterioridade, produto da vontade mental, o raciocínio, com a finalidade de se destacar entre outras pessoas. Só o raciocínio evidencia essa preocupação com destaques e honrarias terrenas, não o íntimo do ser humano, não o espírito. Este último não precisa de holofotes para se fazer valer e nem anseia por isso.

A Lei da Reciprocidade leva em conta justamente o íntimo do ser humano e não as exterioridades que ele procura aparentar na Terra. Se o íntimo não for puro, não fará a menor diferença a quantidade ou valor das esmolas que ele distribui na Terra, como supõem tantos em sua tola esperança, não confessada, de que estas lhes devam ser creditadas de alguma maneira no céu, como se fossem um investimento metafísico de retorno garantido.

A segunda parte do ensinamento: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”, mostra que um ato legitimamente bom do ser humano, proveniente de sua vontade intuitiva, portanto de seu âmago mais profundo, acarreta infalivelmente a recompensa devida pela atuação automática da Lei da Reciprocidade, que traz em si a Vontade do Pai. O ver em secreto indica, pois, uma atuação autônoma, ininfluenciável e absolutamente justa dessa lei. Esse ensinamento já havia sido dado no Antigo Testamento, também em linguagem metafórica: “Se disseres: não o soubemos; não o perceberá Aquele que pesa os corações? Não o saberá Aquele que atenta para a tua alma? E não pagará Ele ao homem segundo as suas obras?” (Pv24:12).

A indicação da atuação automática da Lei da Reciprocidade fica ainda mais clara na seqüência abaixo, num trecho da oração Pai Nosso dada por Jesus e a explicação que se lhe segue:

“E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores. (…) Porque se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai não vos perdoará as vossas ofensas.”

(Mt6:12,14,15)

Se uma pessoa causa intencionalmente mal a outra, fica ligada a esta por fios de reciprocidade, além de pôr em marcha os efeitos recíprocos correspondentes ao seu ato, quer se trate de uma ação visível, de palavras, ou mesmo de pensamentos.

Se o ofensor se arrepende e pede perdão ao atingido, este último tem efetivamente a prerrogativa de perdoá-lo, já que ambos estão ligados entre si por esses fios de reciprocidade. De outro modo não pode haver nenhum perdão, não sem o desencadeamento do respectivo retorno cármico sobre o ofensor, com o reconhecimento do erro por parte deste e o conseqüente resgate da culpa, situação em que ele estará efetivamente perdoado sob o ponto de vista das leis naturais. Em conformidade com essas leis, Jesus disse aos discípulos: “Se por sete vezes no dia [teu irmão] pecar contra ti, e sete vezes vier ter contigo, dizendo: estou arrependido, perdoa-lhe” (Lc17:4).

Essa contingência de ligação pessoal entre ofensor e ofendido, condicionada pela Lei da Reciprocidade, já descarta de pronto qualquer pretensão de um possível perdão concedido por alguém que não esteja diretamente ligado por esses fios de reciprocidade. Quando Jesus disse a Pedro: “O que ligares na Terra será ligado nos céus, e o que desligares na Terra será desligado nos céus” (Mt16:19), estava simplesmente indicando a prerrogativa do espírito humano de poder ligar e desligar esses fios, segundo sua própria maneira de atuar frente à Lei da Reciprocidade. É algo que diz respeito a todos os seres humanos terrenos, indistintamente. Nada mais do que isso. Em nenhum lugar está dito que Pedro fora agraciado aí com um dom especial, sobrenatural, nem tampouco que a partir daquele episódio teria autoridade sobre os demais discípulos.

Pedro foi um ser humano comum, com virtudes e falhas como qualquer outro, e chegou até a participar daquela disputa bobinha para ver qual dos discípulos era o maior (cf. Mc9:33-35). Antes de negar o Mestre por três vezes (cf. Mt26:70,72,74), ele já fora admoestado por ter dormido enquanto Jesus orava no Getsêmani, apesar de este lhe ter pedido, e também aos demais discípulos, que permanecessem em vigília. Disse Jesus severamente a Pedro naquela ocasião: “Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo!” (Mt26:40). E quando Paulo esteve em Antioquia, afirma em relação a Pedro que precisou “resistir-lhe face a face, porque tornara-se repreensível” (Gl2:11).

Esse entrevero entre Paulo e Pedro é mais uma indicação de que os dois apóstolos eram pessoas normais, comuns. Durante um interrogatório, os judeus viram que eles eram “pessoas simples e sem instrução” (At4:13). Ambos tinham suas qualidades e também seus erros, como qualquer pessoa bem-intencionada. Foram grandes homens, mas nunca “santos” intangíveis ou algo semelhante. No entanto, uma nota de rodapé da católica Bíblia de Jerusalém traz um esclarecimento peculiar sobre a imagem de Pedro ligando e desligando coisas no Além: “Caber-lhe-á [a Pedro], pois, abrir ou fechar o acesso ao Reino dos Céus, por meio da Igreja.” Um cristão que aceita isso, que acredita nisso, faz pleno jus em permanecer no seio dessa Igreja, até o fim. Destino equivalente merecem os fiéis que aceitam sem refletir a orientação racionalista de alguns dirigentes evangélicos, segundo a qual “deve-se usar apenas a inteligência e o raciocínio em assuntos de religião, e nunca dar ouvidos ao coração.”

Com sua alusão a ligar e desligar fios da reciprocidade, Jesus também nos dá uma indicação nítida de como deve ser a disposição interior para com nossos semelhantes. Devemos estar prontos a perdoar quem quer que nos tenha ofendido e tenha se arrependido: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe” (Lc17:3). A palavra que em grego indica perdão é metanoia, que tem o sentido de mudar de atitude, redirecionar o coração. O ofensor precisa, portanto, querer de fato se redimir de sua má ação, redirecionando seu modo de ser e de atuar, do contrário a concessão do perdão seria apenas uma condescendência imprópria por parte do ofendido, que só faria fortalecer o mal. Contudo, se houver um arrependimento sincero, então não devemos perdoar o próximo apenas “sete vezes”, mas “setenta vezes sete” (Mt18:22), diz alegoricamente Jesus. Em outras palavras, não deve haver limite para esse tipo de perdão.

Também o ato de perdoar precisa ser sincero, pois guardar rancor, ou, pior, alimentar desejos íntimos de vingança, já constituem outras más ações provenientes da vontade interior, e conseqüentemente dão ensejo à formação de um novo carma pesado, de mais fios ruins de reciprocidade, que igualmente terão de ser resgatados um dia. O Saltério e o Eclesiástico advertem sobre a irritação alimentada contra o próximo: “Não te irrites por causa dos maus (...). Desiste da ira, depõe o furor, não te irrites, só iria piorar” (Sl37:1,8); “Lembra-te dos Mandamentos, e não guardes rancor contra teu próximo” (Eclo28:7).

No final da parábola do rei e dos servos devedores podemos observar o resultado dessa piora. Ali, um dos servos, cuja elevada dívida tinha sido perdoada pelo seu senhor, não foi capaz de perdoar o seu conservo, que lhe devia uma ninharia. Vejamos a atitude tomada pelo senhor desses servos ao saber do fato e a conclusão de Jesus:

“E indignando-se o seu senhor, o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.”

(Mt18:34,35)

Nota-se aí também, mais uma vez, a menção ao íntimo do ser humano, ou seja, ao seu coração, à sua vontade intuitiva.

Um pensamento ou desejo mau, oriundo dessa vontade intuitiva, já basta para ativar o mecanismo da reciprocidade, independentemente se tenha ou não podido ancorar-se na pessoa a que é destinado. Essa ancoragem só se dará se a pessoa visada tiver um âmbito de igual espécie em torno de si, condensado pela Lei de Atração da Igual Espécie. Por isso, uma pessoa interiormente boa, que conserva puro o foco dos seus pensamentos, isto é, o seu nascedouro no íntimo, no coração, estabelecerá a paz e conservará para si uma vida feliz, protegida de qualquer influência má externa: “Guarda o teu coração acima de tudo, porque dele provém a vida” (Pv4:23). Uma tal pessoa encontrar-se-á sempre resguardada de quaisquer conformações exteriores de ódio, inveja, maus-olhados, etc., pois as próprias leis da Criação concedem a ela uma proteção automática e eficaz: “Como o pássaro que foge e a andorinha que voa, a maldição gratuita não atinge a sua meta” (Pv26:2).

Em sentido inverso, o processo é idêntico. Pensamentos e intuições de verdadeiro amor ao próximo, de piedade ou compaixão sincera (não de pena ou dó), além de trazerem bons efeitos ao autor na reciprocidade, embelezam o âmbito da pessoa visada e a soerguem, desde que, do mesmo modo, essa pessoa tenha como dar guarida a esses bons influxos, ou seja, desde que seu próprio âmbito fino-material apresente uma espécie análoga. Caso tratar-se de uma pessoa interiormente má, geradora de maus pensamentos, essas boas influências igualmente não podem ancorar-se nela devido ao âmbito de espécie diferente, e ela ficará então privada das bênçãos que lhe adviriam dessa ligação.

Em todos esses processos é de se notar, com nitidez cristalina, a Justiça perfeita que reina na Criação, ajustada até as minúcias. Jesus descreveu com muita clareza essa situação no seguinte trecho do Evangelho segundo Lucas:

“Ao entrardes numa casa, dizei antes de tudo: Paz esteja nesta casa! Se houver ali um filho da paz, repousará sobre ele a vossa paz; se não houver, ela se voltará sobre vós.”

(Lc10:5,6)

Esse dizei indica a exteriorização de um desejar íntimo, capaz de atuar na pessoa a que é direcionado, desde que esta seja realmente um “filho da paz”, isto é, desde que tenha um âmbito de matéria fina de mesma espécie (paz) em torno de si. Do contrário, esse desejar não pode repousar sobre ela, ou seja, não pode ancorar-se nela devido ao ambiente de matéria fina de espécie diferente, tendo de retornar ao gerador.

No trecho a seguir, Jesus fornece um outro modo de expressão para o mesmo conceito de retorno das ações praticadas em relação a outrem:

“Com o critério com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também.”

(Mt7:2; Mc4:24; Lc6:38)

No Evangelho de Marcos, esse trecho aparece seguido da sentença: “…e ainda se vos acrescentará.” Esse complemento também se justifica, porque quando alimentamos uma determinada vontade em nosso íntimo, ou nos aprofundamos num pensamento qualquer, congregamos automaticamente formas análogas de matéria fina pela atração da espécie igual, as quais reforçam ainda mais o pensamento e a vontade intuitiva original. Disso advém que as conseqüências de retorno na reciprocidade também serão aumentadas, tanto no bom como no mau sentido: “Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço” (Lc6:38); “Não semeies nos sulcos da injustiça, para não vires a colhê-la sete vezes mais” (Eclo7:3).

A própria natureza nos dá mostras da atuação dessa lei: de alguns poucos grãos de milho plantados iremos colher várias espigas, cada uma delas com múltiplos grãos. A espécie básica do que foi semeado não mudou, continuou sendo milho, mas a quantidade colhida foi multiplicada. Esse mesmo efeito, de um avolumar contínuo da semeadura original, aparece nessa outra frase bíblica, que acabou se tornando um ditado muito conhecido em todo o mundo: “Semeiam vento, colherão tempestade!” (Os8:7).

Quando alimentamos dentro de nós algum pensamento ou vontade intuitiva estamos – do ponto de vista das leis naturais – pedindo por algo. Algo que nos será entregue infalivelmente, seja bom ou ruim, quer estejamos aqui na Terra ou não, pois “todo o que pede, recebe; o que busca, acha; e ao que bate, se abrirá” (Lc11:10). Jesus indica alegoricamente essa contingência, no caso de vontade boa, na passagem abaixo:

“Qual dentre vós é o pai que, se porventura o filho lhe pedir pão, lhe dará pedra? Ou se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ou se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião?”

(Lc11:11,12; Mt7:9,10)

A reciprocidade é tão incisiva para o espírito humano, que Jesus reiteradamente indicava para o próximo, isto é, para a necessidade de se fazer desinteressadamente o bem ao próximo, pois em virtude dos efeitos retroativos dessas ações, o que fizermos ao nosso semelhante estaremos fazendo, na verdade, a nós mesmos. Essa exortação do Mestre é especialmente nítida nas duas passagens abaixo:

“Amarás teu próximo como a ti mesmo.”

(Mt22:39; Mc12:31; Lc10:27)

“Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles.”

(Lc6:31; Mt7:12)

Foi por essa razão também que na sua primeira Epístola aos Coríntios, o apóstolo Paulo os exorta a “não buscar o próprio interesse, e sim o de outrem” (1Co10:24). Esse interessar-se preponderantemente pelo seu semelhante, de todo coração, é prova de verdadeiro amor ao próximo, é o sinal da passagem do egoísmo para o altruísmo, a ratificação de que a respectiva pessoa realmente passou a amar seu próximo como a si mesma.

Também não por outro motivo Tiago, em sua tão esclarecedora epístola, denomina mui acertadamente de lei régia o “amarás teu próximo como a ti mesmo” (Tg2:8), enquanto que novamente Paulo, nas epístolas dirigidas aos Romanos e aos Gálatas, afirma ainda mais enfaticamente que “tudo nessa sentença se resume” (Rm13:9, Gl5:14). Paulo, inclusive, põe o amor no topo da lista dos magníficos frutos do espírito (cf. Gl5:22), e deixa claro que nada é maior do que o amor (cf. 1Co13:13). O teólogo e tradutor Jerônimo, do século IV, de quem falarei mais adiante, conta que os discípulos do velho apóstolo João, cansados de ouvi-lo repisar sempre de novo a exortação “amai-vos uns aos outros”, perguntaram-lhe porque lhes repetia sempre a mesma coisa. E João respondeu: “Porque esse é o mandamento do Senhor, e com apenas esse que se cumpra, é quanto basta.” E assim é.

Quem realmente cumpre essa sentença jamais causará sofrimento a outrem durante sua peregrinação. Essa é a lei básica que contém tudo quanto precisamos saber. Por isso, os verdadeiros auxiliadores da humanidade de todos os tempos sempre deixaram consignado a seus respectivos povos, de alguma maneira, o sentido dessa lei fundamental:

É sempre o mesmo ensinamento, o mesmo preceito essencial, apenas expresso de modo diferente. O conceito aí inserido é tão importante, que Jesus o transmitiu novamente reformulado aos seus discípulos, como sendo um novo mandamento. Ele não o retirou dessas religiões, ao contrário: como ele era a Verdade integral na Terra, nas suas palavras já estava inserido tudo aquilo que em outras religiões existia de verdade. O mandamento é o seguinte:

“Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei.”

(Jo13:34)

É na nossa maneira de ser, na consideração e respeito para com o próximo, que está esse “amar” de que nos fala Jesus. E uma pessoa que já tenha atingido um amplo progresso, não conhecendo mais nenhuma cobiça terrena, passa então a sentir amor por todos os seres humanos, conforme exemplifica novamente João em sua primeira epístola: “Sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte” (1Jo3:14). O estoicismo, doutrina elaborada pelo filósofo grego Zenão (336 – 264 a.C.), já pregava que o ideal ético máximo é alcançado quando passamos a amar todos os homens como a nós mesmos, isto é, quando nosso amor próprio passa a incluir toda a humanidade, com igual intensidade. As virtudes máximas do estoicismo são: justiça, bravura, prudência e temperança. Zenão também dizia que o ser humano precisava aprender a ser auto-suficiente (ensinamento também de Platão), e que devia saber como suportar a dor sem receio.

A indicação claríssima de Jesus sobre a reciprocidade, de que por fim o ser humano tem necessariamente de colher sempre algo da mesma espécie do que foi semeado, pode, por extensão, ser entendida também como a impossibilidade de alguém colher bons frutos se sua sementeira foi ruim. Essa impossibilidade é retratada da seguinte maneira no Evangelho de Mateus:

“Colhem-se porventura uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons.”

(Mt7:16-18; Lc6:44)

O que fatalmente acontecerá com a árvore (o ser humano) que só produz frutos maus (intuições, pensamentos, palavras, ações), não deixa margem a dúvidas:

“Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.”

(Mt7:19)

A Lei da Reciprocidade também esclarece muitos outros aparentes enigmas da atualidade. É o caso, por exemplo, das mortes violentas, através de acidentes ou assassínios. Quando não é ocasionado por alguma negligência (que igualmente indica uma culpa pessoal pelo ocorrido), esse tipo de morte é sempre um retorno cármico, decorrente de um ato de violência praticado anteriormente, nesta ou numa outra vida terrena. Jesus chegou a mencionar isso quando de sua prisão pelos soldados romanos. Naquela ocasião, um dos que estavam com ele sacou da espada e cortou a orelha de um servo do sumo sacerdote, que acompanhava a guarnição romana. A advertência do Mestre a esse respeito não poderia ser mais clara:

“Embainha a tua espada, pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão.”

(Mt26:52)

O que fazemos a outrem sempre volta para nós mesmos. Se alguém causa intencionalmente danos a uma pessoa, receberá o retorno na mesma forma do ato praticado, e na intensidade proporcional ao sofrimento causado àquela pessoa e também a outras atingidas direta ou indiretamente pela ação má. É o justo retorno da Lei da Reciprocidade, instituída pelo Criador: “É justo diante de Deus que os atribuladores recebam tribulações como retribuição” (2Ts1:6).

A reciprocidade atinge sempre o “eu”, o espírito do ser humano autoconsciente, esteja ele ainda na Terra, como ser humano terreno, ou já no Além, como alma humana. Assim, os casos de recém-nascidos portadores de deformidades físicas também não constituem nenhum mistério para quem conhece a justa atuação da reciprocidade, visto essa atingir o ser humano por completo, em toda sua existência, a qual abrange várias vidas terrenas. Nenhum ser humano pode nascer com um defeito físico qualquer se ele mesmo não tiver dado motivo para isso numa outra vida. O rei Salomão demonstrou conhecer esse processo, ao constatar que, se tinha vindo à Terra num corpo sem mancha, era porque possuía uma alma boa: “Eu era, sem dúvida, criança bem-dotada e recebera, em quinhão, boa alma; ou antes, como era bom, viera a um corpo sem mancha” (Sb8:19,20).

Como as leis da Criação perfluem o ser humano integralmente: espírito, alma e corpo terreno, elas igualmente cuidam de fornecer a ele o necessário para a subsistência durante sua estadia aqui na Terra. Onde houver escassez material, então foi ele próprio que formou isso para si. Jamais esteve na Vontade do Criador que qualquer uma de Suas criaturas tivesse de conhecer necessidades materiais, muito menos pobreza ou miséria.

O ser humano é traspassado por uma força que lhe permite viver, a qual provém do Doador de toda a força: “A força pertence a Deus” (Sl62:12). A força é neutra, e pode ser dirigida tanto para o bem como para o mal. Através de seus pensamentos, palavras e ações, ele tem o poder de dirigir essa força, recebendo para si mesmo depois de certo tempo, através do equilíbrio mantido pela Lei da Reciprocidade, tudo quanto ele próprio formou com essa força neutra a ele doada. Ao fazer uso dessa força ele dá à Criação conformações geradas através de seus pensamentos, palavras e ações; após certo tempo, recebe então da Criação aquilo que anteriormente havia dado a ela, sejam coisas boas ou ruins.

O espírito humano, preenchido pela força, incandesce automaticamente o corpo terreno dado a ele para sua peregrinação na Terra. Uma pequena parte dessa força, um efeito diminuto do dar e receber, ele utiliza então para manter são e vigoroso seu corpo terreno durante os anos em que viverá aqui na matéria mais grosseira. Pelo seu trabalho ele dá materialmente algo à Terra, parte da Criação material, e por isso recebe dela o necessário para a sua vida terrena: alimento, vestuário e moradia.

Recebe tudo isso de modo inteiramente automático e justo, pressuposto que cumpra suas obrigações de espírito humano diante do Criador, de um hóspede benquisto no lar da Criação, conforme descrito nessa passagem do livro de Levítico: “Se andardes nos Meus estatutos, se guardardes Meus Mandamentos e os cumprirdes, então Eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo, e a terra dará os seus produtos, e a árvore do campo os seus frutos” (Lv26:3,4). A Terra é propriedade do Onipotente, e todos nós somos apenas Seus hóspedes nela, conforme diz o Senhor: “A Terra pertence-me, e vós sois apenas estrangeiros e Meus hóspedes” (Lv25:23). O sábio rei Davi tinha exata compreensão dessa condição do ser humano diante do Supremo, a de um simples hóspede: “Diante de Ti não passamos de migrantes, hóspedes como todos os nossos pais” (1Cr29:15).

Cabe ressaltar que se não fosse essa dádiva chamada trabalho, que sempre teve a incumbência de manter a raça humana em permanente movimento aqui na Terra, laborando em prol de sua subsistência corporal e aperfeiçoamento espiritual, ela já há muito teria se auto-extinguido, bem antes até do término do prazo concedido para seu desenvolvimento. Teria afundado inteira na indolência mortífera, pela qual sempre nutriu incontestável pendor.

Se a vida pudesse ser realmente como a maioria das pessoas gostaria que fosse: um dolce far niente perpétuo, adviria logo a estagnação e com ela a doença e a morte, pois outra coisa não pode surgir com o fim da movimentação. Não é coincidência nem acaso, por exemplo, a ocorrência de tantas mortes, aparentemente prematuras, pouco depois da conquista tão acalentada da aposentadoria, nos casos em que esses aposentados realmente passam a exercer a profissão de administradores da ociosidade remunerada, fazendo do ócio seu negócio. Ao desejarem aproveitar o resto da vida para descansar, elas, sem o saberem, a encurtam de vez. Na verdade, acabam se aposentando da própria vida… Uma vida sem movimento é uma vida inútil, e como já dizia Goethe, “uma vida inútil é uma morte antecipada”. Ao contrário do que parece, a boa-vida não é uma vida boa. Inclusive, ou melhor, especialmente, no campo espiritual. Se a falta de movimentação do corpo terreno traz doença e morte, o mesmo se verifica com o espírito humano. Um espírito humano estagnado, que não se anima em tomar o caminho de sua própria evolução, contentando-se com uma aposentadoria dogmática qualquer, também acabará morrendo, por descumprimento da mesma Lei do Movimento, que veremos logo a seguir. Nesse caso, porém, trata-se da morte espiritual, equivalente à condenação eterna.

No campo terreno, a movimentação garante a permanência do ser humano em seus caminhos pela matéria grosseira. Uma pessoa que se esforça em utilizar exclusivamente para o bem a força a ela outorgada, nunca se verá na contingência de ficar privada do necessário à sua subsistência. Pode passar por algumas dificuldades momentâneas, pode ficar sem uma ou outra coisa, mas jamais conhecerá a miséria. Pelos efeitos automáticos da Lei da Reciprocidade uma tal situação é impossível. Ela acabará encontrando o trabalho que lhe compete, tudo caminhará bem e será feliz: “Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem” (Sl128:2).

Em primeira linha o ser humano recebe, pois, dádivas espirituais por efeito dessa Lei da Reciprocidade, as quais, se corretamente utilizadas e desenvolvidas, trarão como retorno a possibilidade de se alcançar o alvo supremo: viver eternamente em sua verdadeira Pátria, o Paraíso. Em grau de importância proporcionalmente menor, recebe ele também dádivas materiais, que são igualmente efeitos dessa mesma lei, as quais atingem o ser humano em sua passagem provisória pela Terra. Essa contingência também foi descrita por Jesus numa de suas preleções:

“Não andeis, pois, a indagar o que haveis de comer e beber, e não vos entregueis a inquietações. Porque os gentios de todo o mundo é que procuram essas coisas, mas vosso Pai sabe que necessitais delas. Buscai, antes de tudo, o Seu reino, e estas coisas vos serão acrescentadas.”

(Lc12:29-31)

Sempre e sempre de novo se reconhece que tudo, mas tudo mesmo, se encontra exclusivamente nas mãos do próprio ser humano. Unicamente ele é senhor do seu próprio destino, unicamente ele decide o que vai encontrar em suas peregrinações através da Criação: penúria ou abundância, tristeza ou alegria, sofrimento ou felicidade, perdição ou salvação. Ele decide, ele planta, ele colhe.