A Missão do Salvador

Correlação Entre a Época Messiânica e a Atual

Não existem acasos nos fenômenos da Criação. Tudo se processa dentro da mais severa lógica estabelecida pelas leis que a sustentam, as quais traduzem a própria Vontade do Todo-Poderoso. Vontade essa absolutamente indesviável e imutável, porque Ele, o Criador, permanece sempre o mesmo. “Tu és sempre o mesmo” (Sl101:28), louva o rei Davi, porque “a Verdade do Senhor permanece eternamente” (Sl117). E o Senhor o confirma pela boca do profeta Malaquias: “Eu sou o Senhor, e não mudo jamais” (Ml3:6). Com o processo da vinda de Jesus não poderia ser diferente, mas teria de inserir-se obrigatoriamente dentro dessa imutabilidade da Vontade divina.

As profecias sobre a chegada do Messias, registradas nas antigas Escrituras do povo judeu, são uma indicação de que a necessidade de um mediador divino já se tornara patente há muito tempo, vários séculos antes de sua vinda. O pavoroso culto de Baal, por exemplo, começou a se alastrar pela Babilônia há sete mil anos…

Também a própria escolha do povo judeu para abrigar em seu seio o Filho de Deus não foi nenhum acaso, nenhum ato arbitrário, mas apenas uma decorrência direta e automática de uma das leis da Criação, denominada Lei de Atração da Igual Espécie. Naquela época em que a humanidade já estava inteiramente mergulhada nas trevas, descendo cada vez mais celeremente rumo ao descalabro total, o povo judeu era o que ainda conservava a concepção mais pura, mais verdadeira da existência de um Deus Único, angariada séculos antes à custa de pesado sofrimento, sob o jugo dos egípcios. E, posteriormente, quando o raciocínio também começou a se imiscuir em sua doutrina, ameaçando degradá-la, a mão de ferro dos romanos cuidou de manter viva, num pequeno grupo desse povo, aquela concepção pura inicial sobre o onipotente Criador dos Mundos.

Como Jesus veio das alturas máximas, ele só poderia encarnar-se no povo que espiritualmente se encontrasse como o mais elevado, segundo a Lei. Ao descer através dos planos da Criação ele se encaminhou então para o povo que dele mais se aproximava em suas concepções e esforços em direção ao Alto. Este povo era o povo judeu, mais precisamente o pequeno grupo que se manteve fiel até aquela época, o qual, com isso, cumpriu efetivamente a antiga promessa feita diante de Moisés: “Tudo o que o Senhor falou, faremos” (Ex19:8), constituindo então – e somente esse pequeno grupo – o que ainda se podia chamar de “uma nação santa” (Ex19:6), “porção escolhida entre todos os povos” (Ex19:5).

Tratava-se do pequeno número de justos que tinha restado da casa de Israel, o “resto salvo de Israel” (cf. Rm9:27): “Não restará de vós nada além de um pequeno número no meio das nações para onde o Senhor vos tiver levado” (Dt4:27). Esse grupo reduzido era constituído dos “sobreviventes de Israel”, o “resto de Sião” ou o “remanescente de Jerusalém”, cujos nomes estavam inscritos para vida, e onde pôde se encarnar então o rebento de Yahweh – o Messias: “Naquele dia, o rebento de Yahweh se cobrirá de beleza e glória, o fruto da terra será motivo de orgulho e um esplendor para os sobreviventes de Israel. Então o resto de Sião e o remanescente de Jerusalém serão chamados santos, a saber, o que está inscrito para a vida em Jerusalém” (Is4:2,3). Sião, ou monte Sião, é a colina onde Jerusalém foi edificada, sendo freqüentemente associada à própria cidade.

O período em que se deu a encarnação do Filho de Deus nesse pequeno grupo humano tampouco foi obra do acaso, mas sim ocorreu num bem determinado momento da História. Se não tivesse ocorrido precisamente naquela época, teria sido impossível uma encarnação em tempo posterior, porque a humanidade já teria afundado tanto que uma ligação direta com a Luz não teria sido mais possível. O resultado é que ninguém mais na Terra poderia ser salvo, e quando chegasse a época da colheita, o Juízo Final, não haveria mais um ser humano sequer que pudesse “estar de pé na presença do Filho do Homem” (Lc21:36), isto é, não haveria mais ninguém capaz de subsistir ao Juízo desencadeado pelo Filho do Homem.

Jesus chegou a esta Terra há pouco mais de dois mil anos, mais precisamente em 12 a.C. segundo nossa atual (e errônea) contagem de tempo. Seu nascimento foi anunciado pelo aparecimento de um cometa gigantesco, conhecido hoje como Estrela de Belém. Mateus diz em seu Evangelho que os reis magos foram guiados até o local do nascimento por uma estrela: “Vimos a sua estrela no Oriente, e viemos para adorá-lo” (Mt2:2). Esse acontecimento é descrito mais explicitamente no Evangelho apócrifo de Tiago: “Vimos um astro muito grande que brilhava entre as demais estrelas e as eclipsava, fazendo-as desaparecer. Nele temos conhecido que em Israel nasceu um rei, e viemos adorá-lo.” Também é digno de nota, sobre a magnificência da Estrela de Belém, essa declaração um tanto hiperbólica do bispo Inácio de Antioquia, no ano 107: “Uma estrela brilhou no céu mais do que qualquer outra estrela, e todas as outras estrelas junto com o Sol e a Lua formaram um coro ao redor da estrela de Cristo, que superava todas em esplendor.” No século III, Orígenes esclareceu que essa estrela fora na verdade um cometa.

A Estrela de Belém foi um grande cometa anunciador que surgiu no céu em 12 a.C., e cujos registros chegaram, sim, até nossa época. O historiador Dio Cassius, por exemplo, autor de uma longa história de Roma, desde a sua fundação até 229 d.C., fala de um cometa avistado em Roma em 12 a.C., na época em que morreu Marcus Agrippa, o famoso comandante romano. Registros astronômicos chineses datados do século 1 d.C., os quais trazem anotações de anos precedentes, também mencionam o aparecimento de um cometa em 12 a.C. Segundo o historiador e pesquisador Nikos Kokkinos, os Gregos e os Romanos observaram e descreveram 135 cometas antes do advento do Cristianismo, sendo que o último deles foi justamente no ano 12 a.C.

Alguns pesquisadores acreditam que esse astro tenha sido o cometa Halley, que periodicamente se aproxima da Terra em sua órbita pelo sistema solar. Essa suposição não é verdadeira. Apesar da fama incomum que desfruta, o cometa Halley é pequeno e sem importância quando comparado a um cometa anunciador, como o foi a Estrela de Belém. Esse fato, porém, não é do conhecimento dos astrônomos e das autoridades eclesiásticas de hoje, como já não o era na Antiguidade e na Idade Média. Quando o próprio cometa Halley surgiu no céu no ano de 1456, causou um temor generalizado na Europa.

Um outro pesquisador, também convencido da data de 12 a.C. para o nascimento de Jesus, é Jerry Vardaman, diretor do Instituto de Arqueologia da Universidade de Mississipi e professor de religião. Dr. Vardaman elaborou um minucioso estudo das moedas cunhadas no início da era cristã e chegou a algumas conclusões interessantes. Ele verificou que muitas dessas moedas trazem inscrições em letras minúsculas, feitas pelos usuários da época, sendo bastante comuns as alusões a Jesus. Uma das moedas, cunhada em Damasco no ano 16 d.C., no tempo do rei nabateu Aretas IV, traz várias referências a Jesus, tais como: Jesus – Rei dos Judeus, Rei, Messias, e também a frase: “Ano Um de Jesus de Nazaré na Galiléia”. Outra dessas moedas traz as palavras REX JESVS (Rei Jesus) seguidas da data LZKT, que corresponde ao ano 15 d.C. da nossa era. E numa outra moeda, cunhada na época de Agripa I, em 43 ou 44 d.C., está escrito que “o Reino de Jesus iniciou-se no ano LZKT”. Segundo o Dr. Vardaman, Jesus somente poderia ter iniciado seu ministério em 15 ou 16 d.C., conforme indicado nessas inscrições, se tivesse nascido em 12 a.C. A corroborar essa tese, ele lembra que o historiador Flávio Josefo (37 – 100) também coloca o início da pregação de Jesus no período compreendido entre 15 e 19 d.C.

De acordo com o Evangelho de Lucas, essa data teria sido um pouco mais tardia, correspondendo a época que “Pôncio Pilatos era governador da Judéia” (Lc3:1), o que, pelo que se sabe, indica algum ponto entre 26 e 36 d.C. Mas devemos lembrar que Lucas não é taxativo a respeito, pois diz genericamente que “ao iniciar seu ministério, Jesus tinha cerca de trinta anos” (Lc3:23). Este “cerca” é uma partícula grega indeterminada, usada aí provavelmente em alusão a outras conhecidas figuras bíblicas do passado, como José, Davi e Ezequiel, cujas atuações também tiveram início com a idade de trinta anos (cf. Gn41:46; 2Sm5:4; Ez1:1). De qualquer modo, as datas podem mesmo variar para mais ou para menos, dependendo de qual dos quatro calendários em vigor na época seja considerado para os cálculos: o relativamente novo calendário juliano, o sírio-macedônio, o egípcio, e o bastante móvel calendário lunar judaico. Esse último era tão móvel, mas tão móvel, que o começo de um mês só era oficialmente declarado caso duas testemunhas fidedignas atestassem terem visto a luz da Lua logo após o pôr-do-sol do último dia do mês anterior.

Sobre tudo isso, temos ainda a contribuição adicional de uma passagem do Evangelho de João, quando Jesus é questionado pelos judeus por ter afirmado que Abraão se alegrara por ter visto seu dia: “Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos e viste Abraão?” (Jo8:57). Em que pese a impossibilidade de se conhecer a idade real de Jesus nessa época, é de se supor que se ele tivesse trinta e poucos anos os judeus teriam dito algo como: “Ainda não tens quarenta anos e viste Abraão?”

Outro aspecto relevante desse tema é a informação de Lucas segundo a qual Jesus nasceu na época do “primeiro recenseamento, quando Quirino era governador da Síria” (Lc2:2). O census sempre foi um dos pilares do sistema de governo romano, mas esse detalhe mencionado por Lucas tornou-se um quebra-cabeça insolúvel para teólogos e exegetas, pois até então se supunha que esse Quirino – Publius Sulpicius Quirinius – havia efetuado um único recenseamento na Palestina, em 6 d.C., data que não combinava com o nascimento de Jesus. O professor Vardaman, porém, informa que existe uma inscrição mencionando outro censo conduzido sob Quirino, que teria sido justamente o primeiro, em 12 a.C., ano em que ele foi inicialmente cônsul em Roma. Alguns historiadores já admitem que Quirino cuidou de uma comissão especial para realizar um censo na Palestina por volta de 10 a.C., porém a data correta é mesmo 12 a.C. Que o ano 12 a.C. foi de recenseamento geral é atestado pelo imperador romano Claudius, o qual afirma que seu pai, Drusus, conduziu um censo na Gália naquele ano. As autoridades romanas de então precisavam descobrir quantas pessoas moravam em cada parte do Império, a fim de poder calcular o valor correto do imposto tributum capitis, equivalente ao nosso imposto de renda. Daí o decreto de Augusto para um censo geral em todo o Império. Mais tarde os fariseus iriam questionar Jesus sobre a legalidade desse imposto (cf. Mc12:14).

Bem, naquela época longínqua em que Jesus chegou à Terra, em 12 a.C. portanto, a região da Palestina vivia um raro período de paz que já durava 25 anos. Contudo, no campo religioso a tensão era constante entre os dois grupos religiosos judaicos mais proeminentes: os saduceus e os fariseus. A rixa só iria ceder com a união de ambos contra um inimigo comum: o Messias.

A palavra saduceu deriva do hebraico sedhokin, que significa “justos”. Também se atribui essa designação ao nome Sadoc, outrora nomeado sumo sacerdote na época de Salomão (cf. 1Rs2:35). Na versão bíblica grega da Septuaginta, de que virei falar mais à frente, Sadoc aparece grafado como “Sadduc”, o que pode realmente ter dado origem ao nome “saduceu”. Os sacerdotes judeus teriam esse Sadoc como seu antepassado, considerando-se assim descendentes diretos dele e, por conseguinte, também de Aarão, irmão de Moisés.

Muitos pesquisadores afirmam que os saduceus constituíam as principais famílias judaicas, de onde saíam quase todos os sumo sacerdotes do Templo, cargo que seria transmitido por hereditariedade. Consta, porém, que eram racionalistas por excelência, mundanos, no que contrastavam fortemente com o grupo rival: o dos fariseus. Aliás, os dois partidos discordavam em praticamente tudo na vida. O único registro que se tem de um trabalho conjunto entre ambos, e bem profícuo, foi a perseguição implacável que moveram contra Jesus.

Apesar de rigorosos e formalistas no campo doutrinário, os saduceus pareciam muito mais interessados em desfrutar suas riquezas do que tratar de maçantes assuntos religiosos. Há, inclusive, indícios de que na época da ocupação romana chegaram a colaborar ativamente com o invasor, e é sintomático o fato de terem obtido cargos importantes em Jerusalém justamente no tempo de Herodes e dos procuradores romanos. Pareciam ser uma espécie de alto clero oportunista. A respeito de seu comportamento no exercício dos cargos que exerciam, o historiador e seu contemporâneo, Flávio Josefo, relata o seguinte em sua obra Antiguidades Judaicas: “Toda vez que obtinham um cargo, observavam – contra a vontade e por obrigação – o que os fariseus diziam, porque do contrário o povo não os aceitaria.” E acrescenta: “Os saduceus são de humor intratável, mesmo entre eles.”

Os saduceus não acreditavam no futuro Juízo, em anjos, em espíritos, em milagres e na concepção reinante sobre a ressurreição corpórea. Também não atribuíam à tradição oral, tão prestigiada pelos fariseus, o mesmo valor da palavra escrita. Eram, assim, bastante conservadores no que dizia respeito aos preceitos da tradição escrita de sua religião. Embora não recusassem integralmente os salmos e os escritos dos profetas, consideravam como única diretriz válida a Torá ou Pentateuco (do grego pente – cinco e teuchos – rolo), os cinco primeiros livros da Bíblia, numa atitude frontalmente contrária aos que acreditavam que os 22 livros, que na época formavam o Antigo Testamento, também eram especiais. (1) Esses textos correspondem aos 39 livros que compõem o Antigo Testamento na divisão moderna.

Os fariseus, por sua vez, constituíam o grupo dos progressistas de então, dada a facilidade com que incluíam seus próprios conceitos na interpretação da lei de Moisés, como por exemplo a ressurreição dos mortos. Acredita-se que o termo fariseu derive do aramaico perishayyã, que significa “separados”, numa alusão aos que com seu estrito devotamento à lei das Escrituras se mantinham separados de tudo quanto era impuro, em especial do “povo da terra”, isto é, do povo ignorante pouco afeito às prescrições: o “povinho que não conhece a Lei” (Jo7:49).

Os fariseus “consideravam-se justos e desprezavam todos os outros” (Lc18:9); pregavam a Justiça de Deus, o Julgamento Final, o Paraíso celeste, e aguardavam a chegada do Messias profetizado… Para eles, a salvação só era possível mediante a observância rigorosa da lei religiosa, tanto da prescrição escrita como da tradição oral – a “tradição dos antigos” (cf. Mt15:2; Mc7:3) repassada de geração em geração, e por isso procuravam fazer tudo o que, segundo suas concepções, ela regulava: oravam, davam o dízimo, lavavam-se antes de comer, purificavam utensílios domésticos e, além do jejum ritual obrigatório, faziam dois jejuns suplementares por semana. No sabá (do hebraico shabbath – repouso), que designa o sábado como dia de descanso, eles não realizavam nenhuma tarefa e nem se afastavam mais de dois mil côvados (880 m) de suas casas, dentre outras 37 proibições adicionais estabelecidas para esse dia. Alguns interpretavam literalmente a recomendação de Moisés de trazer consigo as palavras de Deus (cf. Dt6:8;11:18), e por isso portavam sobre a fronte e os braços estojos contendo pergaminhos com trechos das Sagradas Escrituras, (2) uma prática que Jesus criticou abertamente (cf. Mt23:5). Alguns se dedicavam ao estudo das Escrituras em tempo integral. Preferiam fazer negócios somente entre membros do grupo, pois assim tinham certeza do pagamento do dízimo das mercadorias, conforme as regras. Sobre esse costume, Jesus disse que os fariseus pagavam “o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho e deixavam de lado os ensinamentos mais importantes” (cf. Mt23:23). Flávio Josefo diz o seguinte sobre o rigorismo dos fariseus: “Um grupo de judeus com fama de superar todos os outros a respeito da religião e na exata interpretação da lei.”

Os fariseus eram, pois, rigidamente dogmáticos, para não dizer credulamente obtusos. A prática religiosa deles estava adstrita às exterioridades de sua crença, à observância rigorosa dos 613 preceitos que compõem a lei mosaica, divididos em 248 mandamentos (número de partes do corpo que devem cumpri-los) e 365 proibições (número de dias do ano em que se deve observá-las), além das milhares de normas complementares. Intimamente, porém, eram em sua maioria maus, pérfidos. Por essa razão, todas as suas ações tinham de se mostrar como más, apesar de exteriormente se esforçarem em passar por homens santos, profundamente compenetrados em cumprir os preceitos de sua religião, por eles mesmos interpretados.

Jesus foi sistematicamente atacado pelos fariseus, e em todas as oportunidades desmascarava sua falsidade. Numa ocasião, repetindo o epíteto colocado sobre eles por João Batista (cf. Mt3:7), chamou-os de “raça de víboras”, ao mostrar que os frutos de seu atuar tinham necessariamente de ser maus, já que eles próprios eram maus interiormente:

“Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau, porque pelo fruto se conhece a árvore. Raça de víboras! Como podeis falar coisas boas sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração.”

(Mt12:33,34)

Com “coração” Jesus se referia ao íntimo do ser humano, ao seu âmago mais profundo, isto é, à sua vontade interior ou vontade intuitiva, que provém do espírito. Certa feita, após curar um paralítico, Jesus percebeu que alguns doutores da lei estavam íntima e silenciosamente acusando-o de blasfemador, e prontamente os indagou: “Por que discorreis assim em vossos corações?” (Mc2:8).

A Bíblia, por sinal, fala que o coração do homem pode ser puro (Sl24:4;73:1), sincero (Gn20:5), reto (Dt9:5; 1Rs3:6), enganoso (Jr17:9), e afirma que o Senhor “examina o coração” (Sl17:3; Jr12:3; Rm8:27). Conforme veremos mais à frente, não é o Senhor, pessoalmente, que examina o coração do ser humano, mas sim isso se dá de maneira autônoma, através das leis que Ele inseriu em Sua Criação, as quais envolvem Sua criatura por todos os lados, como se Sua mão estivesse de fato sobre ela: “Por trás e pela frente me envolves, e pões sobre mim a Tua mão” (Sl139:5). É dessa maneira que se manifesta a onisciência do Criador.

O coração é, portanto, o íntimo propriamente do ser humano, “a fonte da qual não pode jorrar do mesmo lugar o que é doce e o que é amargoso” (Tg3:11). Esse íntimo, a vontade interior, é o retrato do verdadeiro ser humano espiritual, assim como ele realmente é e não como procura aparentar aos seus semelhantes. O espírito humano é o único que conta para os efeitos das leis da Criação. Aquele cujo espírito é puro não precisa temer nenhum castigo: “Feliz o homem a quem o Senhor não atribui nenhum delito e em cujo espírito não há falsidade” (Sl32:2).

As leis que governam a Criação, originadas da Vontade do Criador, consideram justamente essa vontade interior, o coração do homem, e por isso não se deixam enganar por simples aparências ou maquinações exteriores. Por isso, também está escrito que “o homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração” (1Sm16:7). No Saltério, ou Livro dos Salmos, vemos uma alusão a essa contingência no procedimento tolo dos malfeitores, que acham que permanecerão impunes porque ninguém está vendo suas intrigas e ardis, mas que acabam sendo atingidos inexoravelmente pela reciprocidade: “Teimam no mau propósito; falam em secretamente armar ciladas; dizem: ‘Quem nos verá?’ (…) É um abismo o pensamento e o coração deles. Mas Deus desfere contra eles uma seta; de súbito se acharão feridos” (Sl64:6,7,8).

Jesus também aludiu muito claramente à reciprocidade referida ao estado do coração humano nessa advertência dirigida aos fariseus:

“Vós sois os que justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece vossos corações.”

(Lc16:15)

Este era o material humano que Jesus tinha de defrontar, uma amostragem bastante significativa da profundidade espiritual em que se encontrava a humanidade inteira, no curso de sua queda irrefreável que vinha já de milênios.

De lá para cá a situação, evidentemente, ficou pior, porque a humanidade como um todo escolheu continuar afundando no abismo. Os erros básicos, condenados tão incisivamente por Jesus há dois mil anos, permaneceram na essência os mesmos, a despeito das novas formas em que se apresentam hoje. Assim, podemos perfeitamente estabelecer um paralelo entre a época em que Jesus os denunciou e agora, no tempo presente. A própria expressão “fariseu” trasladou-se inalterada para a nossa época, como uma mistura condensada de vaidade espiritual e hipocrisia. (3)

Dentre as várias passagens em que Jesus aponta a hipocrisia inerente aos fariseus e escribas, estes últimos também chamados doutores da lei (intérpretes das Escrituras), há uma que mostra de maneira muito clara o erro de se preocupar com as aparências em detrimento do aperfeiçoamento interior, espiritual:

“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes por dentro estão cheios de rapina e intemperança. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo. (…) Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundície. Assim também vós pareceis justos aos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e iniqüidade.”

(Mt23:25-28)

Dessa hipocrisia profundamente entranhada em seu ser, aqueles fariseus deram mostras em diversas oportunidades, culminando com a preocupação piedosa de não adentrar ao palácio de Pilatos para “não se contaminarem” (cf. Jo18:28), enquanto que o objetivo deles ali era levar um inocente à morte.

A hipocrisia e a iniqüidade denunciadas por Jesus naquela época estão hoje prodigiosamente espalhadas pela Terra inteira, muito bem protegidas sob o nome de mentira, apanágio pungente do farisaísmo mais descarado. É bastante significativo que a palavra que designa mentira em hebraico – sheker, possa ser aplicada não somente à esta, mas a qualquer outro pecado…

A mentira é, de fato, o âmago de todo o pecado, de todo o mal, e por isso tudo, mas tudo mesmo na vida humana atual está impregnado de mentira. Regimes políticos e profissões, religiões e ciências, artes e literatura, crenças esotéricas e filosofias multifacetadas, nada ficou livre dela, como conseqüência natural da profunda queda espiritual de toda a humanidade. Nada pôde manter-se apartado dela e muita coisa nem mesmo quis. Vivemos hoje sob o império da mentira. É como se toda a Terra tivesse sido envolta por um único e denso lodaçal sufocante, que fez submergir sem resistência toda a orgulhosa raça humana, juntamente com suas falsas obras, impedindo qualquer integrante dessa espécie de chegar à tona mesmo que queira, muito menos ainda de voltar a ver com clareza e respirar ar puro.

Desde os tempos bíblicos, praticamente ninguém mais deu a devida atenção à advertência: “Guarda-te da mentira em qualquer circunstância: persistir nela não leva a nada de bom” (Eclo7:14). A explicação desse notório pouco caso é, muito realisticamente, de que “ela [a mentira] se encontra continuamente na boca dos imbecis” (Eclo20:26). Hoje em dia, é a mentira que prepondera por toda a Terra: “É a mentira e não a verdade que prevalece na Terra” (Jr9:2).

Mas como são tolos os que imaginam poder escapar da reciprocidade com o escudo da mentira, que com auto-ilusões procuram acalmar a si mesmos e a outrem. Eles dizem: “Quanto ao flagelo ameaçador, ele passará sem atingir-nos, porque fizemos da mentira o nosso refúgio e atrás da falsidade nos escondemos” (Is28:15). Quantos não têm hoje essa frase impregnada em seus corações?… Todos eles sucumbirão em suas mentiras e falsidades.

A mentira é o sintoma mais drástico, mais visível, do terrível processo de enrijecimento dos conceitos que norteiam a vida humana. Mudam apenas as denominações dos muitos erros, falhas e pecados, transfigurando-se em situações que são não apenas aceitas mas até desejadas. Adultério é amor livre, corrupção é esperteza, ladroeira é criatividade financeira, e por aí vai. Frutos putrefatos da cobiça humana, adubados pela mentira.

A mentira tornou-se o esteio da vida moderna, a base dos relacionamentos familiares, profissionais e públicos. A primeira lição que uma criança aprende, ainda no berço, é como mentir e enganar, com os seguidos exemplos dados pelos pais e parentes próximos. Mentem entre si diuturnamente pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados, governantes e governados. Todos indiferentes à máxima de que “mais vale um ladrão do que um mentiroso contumaz” (Eclo20:27), ou de que “mais vale um indigente do que um mentiroso” (Pv19:22), sem tampouco se importar de que “os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor” (Pv12:22), e de que “a porção que cabe a todos os mentirosos é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte” (Ap21:8), pois “o que profere mentiras não escapa” (Pv19:5).

A chamada linguagem diplomática, esse polido e hermético idioma com que os chefes de Estado falam uma coisa querendo dizer outra, é a própria mentira institucionalizada. Na política atual os exemplos de falsidade são tantos que nem é possível discorrer sobre eles.

O enrijecimento fez da mentira uma característica aceitável, até necessária para a convivência diária, e a mentira retribuiu à altura, retirando das religiões o que ainda lhes restava de movimentação espiritual. Os dogmas de múltiplas espécies espelham a mornidão abafadiça das respectivas doutrinas, fazendo do mundo da fé uma imensa Laodicéia espiritual.

Nada é pior do que ser “morno” em matéria de fé. Os “frios” (céticos) ainda poderão chegar ao reconhecimento, mediante vivências e reciprocidades duras, e os “quentes” (convictos) precisam cuidar de permanecer em contínua movimentação espiritual, a fim de não caírem. Mas os “mornos” não têm nenhuma chance. Estão eternamente refestelados em sua crença tépida, surdos e cegos diante de todas as advertências e avisos. Antepõem a qualquer exortação mais dura, a satisfação daquilo que julgam ter em mãos. São esses mornos que serão expelidos pelo Juiz: “Conheço a tua conduta. Não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente! Mas, porque és morno, nem frio nem quente, estou para vomitar-te de minha boca” (Ap3:15,16).

A rigor, não se verifica nenhuma diferença de vulto entre as práticas religiosas atuais e as dos antigos fariseus. Também hoje o que conta são as exterioridades, as orações recitadas mecanicamente “em vãs repetições” (Mt6:7) e as ofertas monetárias. São essas as coisas que sobejam nas “doutrinas várias e estranhas com que as pessoas se deixam envolver” (Hb13:9), de modo que elas mesmas “enganam o próprio coração, e a sua religião é vã” (Tg1:26). Em matéria de religião, realmente, “não há nada de novo sob o Sol” (Ecl1:9). Lamentavelmente.

Como não imaginar que esse questionamento de Jesus, dirigido aos fariseus e sua tradição enrijecida, não seja válido nos dias de hoje?

“E vós, por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? (…) Anulastes a Palavra de Deus em nome da vossa tradição.”

(Mt15:3,6)

E como também não imaginar que as palavras abaixo, pronunciadas por Jesus há dois milênios, não sejam igualmente válidas para a época presente? Inteiramente válidas?...

“Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos dos homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais as tradições dos homens. Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. (…) Assim, anulais a Palavra de Deus por causa da vossa tradição, que passais uns para os outros.”

(Mc7:6-9,13)

E no que difere a atuação dos pregadores dos tempos atuais em relação aos fariseus de outrora?…

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis o mar e a terra para converter alguém, e quando o conseguis, o tornais merecedor do inferno, duas vezes mais do que vós.”

(Mt23:15)

Os saduceus e fariseus estão todos aí novamente.

Os saduceus aferravam-se estritamente à letra da “Lei de Moisés”, e afora esse legalismo não viam mais nada à sua frente, ao passo que os fariseus se devotavam à “tradição dos antigos”, única maneira de se compreender as Escrituras, no entender deles. Qualquer semelhança com as duas principais facções cristãs atuais não é mera coincidência. Por cima dos fundamentos da pura doutrina original de Cristo, apenas “edificou-se ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha” (1Co3:12), nada se conservando hoje dos legítimos ensinamentos espirituais.

Assim como os saduceus e fariseus seguiam seus próprios caminhos, no fiel cumprimento dos preceitos de sua religião, na ilusão de estarem cumprindo ao mesmo tempo a Vontade do Senhor, os dirigentes e adeptos das crenças religiosas atuais também se afastaram resolutamente da Verdade trazida pelos Precursores e posteriormente pelo próprio Filho de Deus. São eles todos a “geração pura a seus próprios olhos, mas que não se lavou de sua imundície!” (Pv30:12).

Já no início do Cristianismo Paulo disse: “Não somos como tantos outros que mercadejam a Palavra de Deus” (2Co2:17). Quão longe essa prática mercantilista está do significado original da palavra “religião”, que no latim comporta três sentidos entrelaçados: religio: lealdade, consciência do dever; relegere: revisitar, retornar ao que fora abandonado; religare: reatar, tornar a ligar. A verdadeira religião, portanto, é uma re-ligação leal, aquilo que permite (ou devia permitir) ao ser humano religar-se com fidelidade ao Criador, depois de se ter afastado voluntariamente Dele. Era isso o que as religiões cristãs deveriam proporcionar a seus adeptos… No entanto, os pregadores de hoje só fazem mesmo pregar o Redentor na cruz sempre de novo, crucificando continuamente a Palavra Sagrada com suas mentiras de “salvação gratuita” e “justificação pela fé”. Assassinam novamente a Palavra todos os dias vezes sem conta, sem piedade, com os cravos da indolência espiritual.

Uma pessoa só poderá tirar proveito de uma religião instituída se, após minuciosa análise, tomar para si apenas aquilo que pode admitir como certo, isto é, aquilo que ela tem convicção íntima de corresponder à Verdade. Deve nisso seguir o exemplo de Lucas, que só se decidiu a escrever seu Evangelho “depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem” (Lc1:3). Não deve imaginar que é grandeza de espírito aceitar coisas que não compreende, ou, pior, que no fundo sente como erradas mas que ainda assim assimila para si, só porque alguém já se ocupou com aquilo antes. Muito pelo contrário! O questionamento de coisas que ela não considera certas em sua religião mostra que seu espírito ainda está vivo, e que se insurge imediatamente contra todo o falso e insano, através de sua voz, a intuição. Não deveria nunca se esquecer de que muita coisa que é “elevada para os homens é abominável diante de Deus” (Lc16:15).

Os símbolos utilizados nas várias religiões têm seu valor enquanto forem considerados como tal, como estímulos importantes, necessários até, para dirigir os pensamentos dos adeptos de modo menos turvo ao Altíssimo Criador dos Mundos. O que passa disso é idolatria. Unicamente uma crença viva, proveniente da Verdade e, sobretudo, vivificada pela própria pessoa, pode transformar-se em convicção, e tão-somente a plena convicção é capaz de impulsioná-la a ascender espiritualmente, a modelá-la num ser humano sempre e sempre melhor, preceito que, aliás, sempre foi o fundamento de toda doutrina verdadeira.

As doutrinas verdadeiras sempre ensinaram a incondicional responsabilidade pessoal e a imprescindível movimentação espiritual própria. Somente mais tarde, quando os sucessores e dirigentes dessas puras doutrinas originais se esmeraram em “aperfeiçoá-las” por conta própria é que esses ensinamentos tão fundamentais foram relegados para o segundo e terceiro planos, ou até mesmo completamente suprimidos. Em seu lugar foram então inseridas as formas ocas da fé cega, que não exigem nenhum esforço de aperfeiçoamento interior do indivíduo, e que justamente por isso sempre receberam calorosa acolhida por parte do rebanho de adeptos, desejosos de continuar no aconchego de sua fatídica letargia espiritual. São esses adeptos submissos “os incautos, cujos corações foram enganados com suaves palavras e lisonjas” (Rm16:18).

Os verdadeiros convocados e profetas de todos os tempos foram, ao contrário, invariavelmente severos e duros, muito duros, para com os povos que lhes era dado guiar. Agiam assim por amor, por saberem que só com intensa movimentação espiritual o ser humano pode ascender espiritualmente e, por fim, alcançar o Paraíso. Não se preocupavam se suas palavras pareciam ou não agradáveis aos ouvintes, mas cumpriam fielmente a incumbência que haviam recebido do Senhor: “Dirás a eles Minhas Palavras, quer escutem, quer não” (Ez2:7). Aliás, como fez também João Batista com suas admoestações tão firmes, e igualmente o apóstolo Paulo: “Estaria eu agora procurando o favor dos homens ou o de Deus? Acaso procuro agradar os homens? Se eu ainda agradasse os homens, não seria mais servo de Cristo.” (Gl1:10). Os verdadeiros profetas nunca se preocuparam se os homens de seu tempo falavam mal deles. Ao contrário, dada a profundidade espiritual do povo, teriam ficado preocupados é se começassem a falar bem, conforme o próprio Jesus advertiu seus discípulos: “Ai de vós quando todos falarem bem de vós, pois era assim que seus antepassados tratavam os falsos profetas” (Lc6:26).

Os legítimos convocados sempre tiveram os olhos voltados unicamente para a missão de advertir e exortar a massa indolente, pouco se incomodando se esta apreciava ou não suas palavras. Já os demais líderes, os convocados a seus próprios olhos e os falsos profetas de todos os tempos, sempre procuraram dispensar a humanidade do tão necessário movimento espiritual. Figuradamente falando, os primeiros apresentavam e ainda hoje apresentam apenas as ferramentas para que o próprio espírito humano possa lapidar-se e, com isso, ascender espiritualmente, enquanto que os segundos ofereciam e ainda hoje oferecem somente uma sedutora espreguiçadeira espiritual, na forma de uma linguagem entorpecente e tranqüilizadora, incentivadora de sua indolência e aduladora de suas fraquezas: “Eles são do mundo; por isso falam a linguagem do mundo, e o mundo ouve-os” (1Jo4:5).

Os primeiros são legítimos servidores da Luz, os segundos prestimosos servos das trevas. A humanidade como um todo nunca teve a menor dúvida sobre como agir: ficou com os segundos e hostilizou os primeiros. Sempre. Recostou-se na espreguiçadeira mortal a ela oferecida pelos falsos profetas e cochilou tranqüila, relaxada, sob os acordes inebriantes da fé cega. Os seres humanos, em sua imensa maioria realmente relaxados, nunca se mostraram dispostos a seguir o conselho tão incisivo: “Mais vale ouvir a reprimenda de um sábio do que a cantilena dos insensatos” (Ecl7:5).

As puras doutrinas originais provenientes do Alto se degeneraram em religiões de fé cega, com conceitos cada vez mais torcidos e amortecidos, cada vez mais distanciados da Verdade, e com isso também cada vez mais distintas umas das outras e irreconhecíveis entre si. Só uma coisa ainda une todas essas crenças, numa característica comum: o incentivo à mornidão interior, à flacidez espiritual, que devido a isso se espalhou devastadoramente pelo mundo inteiro como uma pandemia mortal, uma contagiosa abulia espiritual de alcance planetário.

A maior prova de que as atuais religiões não correspondem às doutrinas originais dadas pelos Precursores, e posteriormente à Verdade trazida por Jesus, é a hostilidade mútua entre elas, velada ou não. Nunca poderia acontecer que doutrinas provenientes da Luz pudessem fomentar a discórdia entre si. Se as religiões tivessem permanecido puras, poderiam hoje até ter formas diferentes, mas seriam complementares, convergentes, já que os ensinamentos originais provieram da mesma Fonte. Jamais poderiam ser incompatíveis e muito menos antagônicas, visto que “a sabedoria do Alto é, antes de tudo, pura, depois pacífica, bondosa, conciliadora, cheia de compaixão e de bons frutos, simples e sem disfarce” (Tg3:17). Que assim não é, prova que as atuais doutrinas não são legitimamente espirituais, mas formadas unicamente pelo raciocínio humano-terrenal, tal como já acontecia no tempo do apóstolo Paulo: “Com efeito, se há entre vós invejas e rixas, não sois carnais e vos comportais de maneira meramente humana?” (1Co3:3).

É uma triste ironia que justamente muitos desses crentes que maltratam e desprezam o próximo, ainda façam proselitismo da pureza e da castidade. Quão longe se encontram eles também da verdadeira castidade! Somente aquele que ao agir procura não causar nenhum dano ao seu semelhante, pode ser considerado casto: “Não trames nenhum mal contra o amigo que, confiante, se assenta junto de ti” (Pv3:29).

Mas o real sentido deste e de tantos outros ditos sábios, o ser humano religioso da época atual não consegue mais reconhecer. Simplesmente não pode. O conhecimento da Verdade que a humanidade chegou a possuir num passado remoto, reavivado com imenso amor e desvelo por Jesus, perdeu-se novamente na noite dos tempos. Uma noite terrivelmente longa, de espesso negrume, moldada e sustentada pela mentira, que durante séculos e séculos manteve essa Terra afundada nas trevas, cuidando para que o Sol da Verdade não voltasse a brilhar sobre ela e seus habitantes. Aconteceu finalmente conforme fora previsto por Pedro: “O caminho da Verdade cairá em descrédito” (2Pe2:2).

E assim chegamos à situação atual, em que a humanidade se habituou inteiramente às trevas em que vive, nada mais querendo saber da Luz. Os seres humanos de hoje absolutamente “não conhecem a Luz (…), pois estão acostumados aos terrores da escuridão” (Jó24:16,17). Acostumamo-nos com as trevas do mundo em nossa peregrinação pela matéria, assim como um viandante noturno se acostuma com a escuridão de uma noite sem luar… Mas assim como os olhos materiais se tornam cegos se privados de luz por muito tempo, os olhos espirituais também se tornam definitivamente cegos se imersos em trevas durante um período demasiado longo.

Contudo, quem agora não quiser mais se deixar iluminar pela Luz da Verdade, que mais uma vez cinge a Terra, este não poderá subsistir na nova época que se avizinha. Somente os que caminharem integralmente sob essa Luz vivenciarão a alegria do novo tempo, sendo eles mesmos objeto de alegria para o Alto. Exatamente assim como já acontecera com João em relação à sua comunidade: “Minha maior alegria é ficar sabendo que meus filhos caminham na Luz da Verdade” (3Jo4).

A Verdade provém do Criador. Ela nutre e revigora o espírito humano, e é para ele o caminho reto da ascensão espiritual. Já o seu antônimo, a mentira, é um produto exclusivo da nossa espécie humana degenerada. Essa última corrói a alma, suga as derradeiras forças do espírito e é para ele o poço que o conduz com a máxima segurança às profundezas da perdição eterna.

A palavra “dogma” deriva do grego dokein, geralmente aparecendo na locução dokein mo, cujo significado original é: “parece-me”, “apraz-me”. As doutrinas cristãs mudaram esse despretensioso significado inicial para o seguinte: “coisa estabelecida de modo definitivo que não admite a menor contestação”. Um cristão que aceita irrefletidamente essa acepção se reveste, ele mesmo, de uma camisa de força espiritual, fortemente amarrada pelos dirigentes de sua religião. Abre mão com isso da autoridade sobre si próprio, transformando-se espiritualmente em pouco mais que um zumbi teleguiado, um títere resignado, mesmo que terrenalmente seu raciocínio lhe assegure do contrário. A palavra grega para autoridade é exousia, e seu significado básico é justamente “liberdade de escolha”. O dogma veda essa imprescindível liberdade de escolha, obstrui a atuação do livre-arbítrio da pessoa humana, mantendo-a espiritualmente presa nas concepções de outrem.

Gostaria de intercalar aqui minha resposta a uma questão levantada pela Tradução Ecumênica da Bíblia em sua Introdução à Epístola aos Gálatas. Quero dizer que respondo com um SIM, muito enérgico e decidido, a essa pergunta: “Será que as instituições da Igreja não enclausuram demasiadas vezes os cristãos em limites dentre dos quais eles pensam ter assegurada a própria salvação e se gloriam de praticar a lei do Cristo, reduzida a meio de estar em ordem com Deus?” Sim, enclausuram, como enclausuram! Quando, depois da morte terrena, esses cristãos enclausurados se virem caminhando penosamente no Além, a fé cega que eles e todo os milhões de sua igual espécie tão levianamente deixaram entranhar em seu ser, se lhes moldará à sua frente em barras rígidas, que os impedirão de ascender à Luz. Essas barras, tão grossas e inflexíveis como sua própria crença errada, só poderão ser transpostas por aqueles que, ainda em tempo, conseguirem lançar fora todo o lastro falso, todos os dogmas, e ansiarem de todo coração por verdadeiros reconhecimentos espirituais. Poucos, muitos poucos, nessa situação crítica, conseguirão escapar a tempo dessa imensa prisão coletiva e recuperar a perdida liberdade espiritual.

Quem aceita um dogma, isto é, quem acolhe em si irrefletidamente uma crença qualquer elucubrada por outrem e apresentada como verdade inquestionável, este mergulha voluntariamente numa espécie de buraco negro, do qual nunca mais poderá sair. Fica-lhe assim vedada, por culpa própria, a possibilidade de encontrar e reconhecer a Luz da Verdade. Tal como o astronômico, esse buraco negro da fé cega também suga tudo quanto dele se aproxima inadvertidamente, com uma formidável força de atração que não permite que nada se lhe escape. Essa força de atração tão colossal, à qual quase ninguém consegue resistir, é a dispensa da necessária movimentação espiritual. E tal como o astronômico, o buraco negro da fé cega também retém até mesmo a luz, a tênue luz de algum possível reconhecimento verdadeiro, oriundo da intuição, encobrindo-a nas profundezas letais da indolência espiritual. O som claro da legítima Palavra do Filho de Deus jamais poderá se propagar no vácuo de uma fé cega.

Os dogmas religiosos, quaisquer que sejam, constituem mortalhas para o espírito humano, ao envolver o adepto na ilusão de estar trilhando um caminho seguro, verdadeiro, muito bem pavimentado pelos escribas modernos. O caminho da fé cega é confortável, largo, nada exigindo do andarilho senão uma certa atenção para com os sinais colocados em suas margens: os ritos e as práticas criados pelo intelecto confessional, que mais não fazem senão fomentar a vaidade de cada afiliado. Nesse falso caminho, os fiéis têm a ilusão onírica de estar marchando muito à frente de todos quantos não professam a mesma crença. Uma viagem em tudo semelhante à proporcionada por narcóticos, com a diferença de que nesta não há nenhum retorno para o espírito humano…

O comportamento de muitos cristãos de hoje é a repetição moderna da imagem dada por Jesus sobre o fariseu e o publicano, (4) que oravam juntos no templo:

“O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, ladrões, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!”

(Lc18:11-13)

Em seguida, Jesus deixa claro quem realmente tinha valor aí:

“Digo-vos que este [publicano] desceu justificado para sua casa, e não aquele [fariseu], porque todo o que se exaltar será humilhado, mas o que se humilha será exaltado.”

(Lc18:14)

O caminho confortável (porque só tem descida) trilhado pelos adeptos da fé cega, tido por tantos como seguro, é na verdade o “caminho espaçoso que conduz para a perdição” (Mt7:13), é “a estrada larga que conduz à morte” (Pv12:28), cujo fim é o abismo insondável: “o caminho dos pecadores é bem pavimentado, mas seu fim é o abismo” (Eclo21:10). Em sentido oposto está o “apertado caminho que conduz para a vida” (Mt7:14), muito mais difícil de ser percorrido, requerendo do postulante uma disciplina férrea e perseverante para o bem, pois tão-somente “quem observa a disciplina caminha para a vida” (Pv10:17), ao passo que “aquele que rejeita a disciplina despreza sua alma” (Pv15:32).

Oito séculos antes da vinda de Cristo, o poeta grego Hesíodo intuiu esta mesma imagem e a transcreveu com a linguagem que lhe era própria: “O mal você pode obter facilmente, e em quantidade: a estrada é suave e está sempre perto. Contudo, à frente da excelência os deuses imortais colocaram suor; o caminho para a excelência é longo, íngreme e áspero de início.”

Esse caminho disciplinado para o Alto, em direção à Pátria espiritual, que se pauta exclusivamente pelas leis da Criação, é aquele escalado pelo verdadeiro sábio, pois só “quem age sabiamente há de salvar-se” (Pv28:26). Por isso, “o sábio escala o caminho da vida, para evitar a descida à morada dos mortos” (Pv15:24). Ao contrário da cômoda estrada larga que desliza para a morte espiritual, o caminho que conduz para cima, para a vida eterna, necessita portanto ser escalado com todo o empenho pelo próprio interessado, requerendo esforço pessoal, permanente, no sentido do progresso espiritual.

O ser humano tem a escolha. Ainda.

  1. Havia, inclusive, uma teoria segundo a qual esses textos tinham de ser mesmo em número de 22, porque assim se igualavam às letras do alfabeto hebraico. Isso acabou sendo fácil de se arranjar: bastou reunir num livro único os textos de Juízes e Rute, e em outro os de Jeremias e Lamentações. Retornar
  2. Até hoje ainda se pode ver judeus ortodoxos portando caixinhas presas na cabeça e no braço, chamadas filactérios, com trechos das Escrituras. Retornar
  3. Ver, a respeito, a dissertação “Evitai os Fariseus!”, no terceiro volume da obra Na Luz da Verdade, a Mensagem do Graal de Abdruschin. Retornar
  4. Os publicanos eram coletores de impostos. Os judeus os consideravam traidores e apóstatas, visto que cobravam tributos para os ocupantes romanos. Só o fato de eles trabalharem em contato com estrangeiros já os tornava “imundos” aos olhos dos judeus piedosos. Além disso, os tributos eram mesmo pesados: havia imposto sobre o rendimento, a comida, venda de terras, compras diversas, exercício de profissões, além de taxas alfandegárias internas. Acredita-se que metade da renda de um pequeno produtor daquela época era esvaída em impostos, o que os deixava pouco acima do patamar de subsistência. Retornar